terça-feira, 5 de abril de 2016

circular esfera no mais infinito plano estático e bidimensional.
se te vejo, digo-me a ti. Quero contar-te as minhas lacunas.
quero amarrares-me ao tecto e circundar, desenhar a tinta permanente a mais perfeita das mandalas assimétricas.

Trouxe-te ao colo como um animal em vias de extinção, consequência da usual crueldade humana. Trago-te ao colo como um pequeno animal recém-nascido de uma viagem astral profundamente enraizada na (des)massa cósmica universal.

O meu canto é desafinado e o nosso amor desalinhado.

E ficamos assim, de retinas despertas a expectar o progresso do processo.
Ficamos assim, de rotinas abertas a soar o acesso ao projecto.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

empatia

não consigo ignorar o sentimento de que a existência humana é triste.

tenho um ser no meu corpo quieto, estático e melancólico, inumeras vezes apático.
este ser é louco e visceral,
impulsivo como os pensamentos do mais inquieto estado de alma.

nunca me espreguiço pela manhã.
ainda não descobri se é do deshábito ou se começo cada dia com o bloqueio invisível da expressão corporal.

estalo as minhas asas
como um anjo cansado,
que não sabe ser anjo sem absorver a energia que tenta limpar dos outros.

empatia.
a merda da empatia traz-nos à mente a perspectiva compreendida de todas as falhas e sofrimentos de todos os seres humanos,
a um nível tal que quando olho nos meus olhos me apercebo que me esqueci de me compreender.

é triste que tantas vezes aceitar tudo nos outros me impeça de aceitar a minha própria forma.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Olá, mãe! Sim, está tudo bem...

estou a perder os pés, mãe. a pele sai-me lentamente como a de uma cobra na mudança de estação. mas por baixo... por baixo apenas carne-viva. e faz frio. mãe, tenho frio. vem a correr atrás de mim com o meu casaco esquecido. tu não te esquecias nunca. e não te preocupavas nunca com coisas outras. não sei, mãe, não sei. estou a perder os pés.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

além das mãos

fala-me de ti com um copo de vinho entre os dedos...
consome o aroma das antigas vindimas a pés descalsos
cantando e dançando o amante pisar do ritual
do sangramento das uvas...
gira os teus pensamentos
gira os teus pensamentos
gira os meus pensamentos
gira os nossos pensamento
gira os pensamentos

degusta o redondo sabor do circundante éter ancião

oh, o eterno suco das almas que movem os nossos espíritos
dentro dos nossos corpos energéticos
movendo-se lentamente
quase estaticamente
num sofá baixo
a uma luz baixa, quente, acolhedora,
qual trono de conhecimento
com uma coroa d'oiro, com uma coruja cravada, no topo dos nossos pés,
unindo o nosso sangre sagrado.

(não o poderia assim ter visto, quando a visão não olhava além das mãos)

quarta-feira, 3 de junho de 2015

o orgasmo dos pés

os meus pés têm dedos porque querem agarrar a relva....
e contorcem-se!

o meu orgasmo tem três faces.
três metamorfoses divinas para a concepção astral perfeita.

não me desapareças assim.
não me apareças assim.

a carne... a carne humana desintegrada em minúsculas partículas da existência visceral terrena desfeitas na feição mais pura da luxúria.

odeias-me na vida, mas amas-me no orgasmo.

terça-feira, 2 de junho de 2015

A Safo de Lesbos

Divindade feita corpo terreno
Do vinho de Baco feito vinagre
Afrodite, posse de olhar, poderoso veneno
A cancioneira despe-se naquele acre

E o linho das tecedeiras geme assim
como que gozando as dores do coração
levando a ágora à doce exaltação
de epopeias nunca antes cantadas a ti

Safo, feita deusa, toca-lhes na alma
dos corpos feitos instrumentos,
renasce a bela língua da terra calma
levando longe os ágeis sofrimentos

E o trigo abana-se, incontrolavel mente,
como que libertando aroma a expensão
entre milenares clausuras sem exposição
pedindo amor ao Universo, insaciavelmente.

entrega-me ao destino em branco

Espaços velhos, vazios, abandonados dentro de mim
de inúmeras cores, monocromáticas monotonias
luzes de fusco, mortas de calor assim
numa aragem de qualquer coisa sombria

sons curiosos, violentas harmonias da alma
desesperados sussurros do moderno, alterno
enchem as paredes, transbordam de calma
o que um dia soou de falso eterno

beija-me as chagas, afaga-me a dor
e abraça-me a cantar, aqui, assim,
no lugar da crueldade d'o amor
no calor d'algo novo, indifinido, apenas, agora

leva-me para longe de mim
pega-me, viaja-me, entrega-me
ao destino em branco, pedaços de fatalidades por escrever
numa barulheira infernal de um qualquer estado pacífico
de um qualquer lugar maravilhosamente perdido
nos achados encontrados algures na linha que corri,
que suei e morri, beijei nunca o correcto,
sensação marginal sem espaço nem fundo
que assim sendo suga a certeza de viver.

Explora-me, guia-me e traz-me de volta ao mundo negro,
por fora cheio de d'algo místico, d'algo estúpido,
que faça sofrer e chorar o que de mais claro
se esconde na escuridão da alma.
Suga-me a vida, o olhar embriagado de noites solitárias
em companhias despistadas, encantadas de cegueira, vazia alegria social.

lava-me a magia do amor, lava tudo. leva tudo!
deixa-me apenas, deixa-me apenas ser e não ser.
Deixa-me, não me assombres, deixa-me!

Viajo sempre e sempre volto.
Volto, mas nunca volto inteira.
Cheia de pedaços partidos, solto
de uma maneira quase ligeira
toda a essência de ser quem sou.

2014

Faz-me sentir, vê-me chorar!

Algo de mim morreu contigo e ainda não descobri o quê. O que foi de tão vital assim que me deixa mutilada? Uma incompletude genética talvez? Um desaforo genealógico? O que me deixa assim de luto suspenso? Amo-te! Amo-te! Não te disse, mas tu sabias. Amo-te! Amo-te a ti e à minha memória de ti. Amo tudo o que me deste, tudo o que fizeste da minha vida eu amo. Mas faltas-me. Faltam-me coisas sem nome, coragens sem força, conhecimentos de mim que só tu sabias. Amo-te também por isso. Amo-te! Tu sabes, tu sabes. Mas há tanto de ti que não sinto e sinto falta. Saudades do teu espírito. Estás aí? Fala comigo. Transmite-te a minha essência perdida. Passa-me os teus poderes. Leva-me a conhecer-me! Pega em mim ao colo. Pega em mim ao colo! Faz-me sentir, vê-me chorar. Chora-me! Quero-te comigo. Transmite-me emoções e coisas que desconheço. Ensina-me! Ensina-me a mim mesma. Não vás já! Não me deixes já... Quero ver-te! Preciso ver-te para me ver. Tu sabes. Eu amo-te. Tu sabes. Diz-me! O que há de ti em mim? que herança é esta? Não sei e suspeito. Suspeito e não sei. O que há em mim? Quem sou eu? O que há? Revela-te em mim. Estou aberta. Estou pronta. Revela-te. Revela-me.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Eu liberto-me e tu ficas aí...

Larga-me, solta-me! Deixa-me respirar! Deixa-me ser, deixa-me respirar! Larga-me, desabafa-me, deixa-me sorrir. Pára, larga-me, solta-me! Solta-me! Deixa-me viver! Deixa-me, vai! Vai, abala! Deixa-me, desampara-me, desaparece! Pára de me respirar! Não me toques, deixa-me, larga-me! Afasta-te, já! Afasta-te já! Não me vejas, não me sintas, não me inquietes! Pára, quieto! Pára quieto! Vai! Vai vai! Larga-me, vai, arruma-te! Não me arrumes, arruma-te! Arruma-te, sai da frente! Vai, desaparece, deixa-me, solta-me! Ah! Sai, sai daqui, vai daqui! Deixa-me aqui, vai! Deixa-me ser, deixa-me estar! Deixa-me! Liberta-me! Não, não, pára! Deixa-me! Não me libertes. Não me libertes, deixa-me libertar-me. Deixa-me! Liberto-me de ti. Liberto-me quer deixes que não deixes. Pára apenas, pára! Fica aí! Eu liberto-me e tu ficas aí! Fica, não venhas, deixa-me. Pára! Fica aí... Liberto-me e deixo-te. Eu deixo-te. Eu vou viver e deixo-te aí. Eu vou. Deixo-te. Vou viver, agora! É agora! Vou viver!

2014

segunda-feira, 23 de março de 2015

Ver-te.

Ver-te desarma-me um sorriso de olhar curioso, ainda incompreendido. Todos os mistérios do teu universo por desvendar, cativante platonia de te ver a alma ao longe. E tocar-te com palavras como que dizendo para me olhares nos olhos sem relógios no pulso....

diz-me!

Será que o meu olhar longínquo te diz as coisas que não posso falar?

Será que também pensas em mim quando chegas a casa?

E quando voltas a aparecer-me também dás voltas à cabeça? -- acaso, coincidência, destino ou universo... Acaso, coincidência... destino, universo... Acaso... coincidência... destino... universo...

Ai! O que ouve o teu universo do meu?
Diz-me!

Será que também sentes a tensão a acumular-se quando os nossos organismos se vão aproximando? A matéria, a matéria...

E o que será da matéria das nossas almas quando eu te der mais do que um sorriso?

Um sorriso, só para receber o teu de volta.
Juro que, basta!, mais um sorriso teu te fará ouvir a minha voz...

A visão agrada-me a alma... E o que dirão os sentidos restantes quando te puderem ver de olhos fechados?

Porque não me respondes? Diz-me..

domingo, 8 de março de 2015

Não perdemos nada

photo by Herbert List

[...]
Eu sei e tu sabes que eu o sinto.
Não há nada de errado em nós -
O Universo conspirou em favor do propósito.
Talvez o sintas também, se o procurares...
Mas não é para já!
Os mistérios dos tempos individuais
por vezes tardam a revelar-se, mas,
no fim, está tudo certo.

Aliás, não há fim nem começo.
No fundo, nada se finaliza;
e o princípio já se tinha iniciado quando se viu.
Pois, que também os mistérios da percepção humana são limitados...
e ilimitados no mesmo tempo,
que é, afinal, todos os tempos e tempo nenhum.



Não há erros quando se responde instintivamente aos estímulos do Universo.
E tu e eu sentimos, no corpo e na alma.
O Universo aplaudiu-nos para depois nos sorrir e abraçar.
Deixou-nos os ensinamentos e as mensagens para o momento presente,
que é o que nos deve ocupar.

Não perdemos nada.
Os nossos caminhos estão certos.

sexta-feira, 6 de março de 2015

cinco vezes vezes cinco vezes

A brisa suave do sol a fazer renascer o cheiro doce da primavera entre a visão-luz da lua cheia de magnetismo; e os pássaros lá longe a mimarem as nascentes de água melódica trazem já o gosto das inúmeras viagens da alma nos tempos - a terra encanta-se cinco vezes vezes cinco vezes. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

as estações e os Prenúncios

Quantas vezes te deixei nas estações, para, dali, seguirmos caminhos opostos...

o metro... o comboio... o autocarro...

A despedida...
A tua boca pediu-me um último cigarro antes da viagem.
E a tua cara a sentir que já não me vias da mesma forma.
E eu a sentir que nunca mais te veria a mesma...

Agora... já não me olhas nos olhos...

Agora? Enrolas-me um cigarro?
Vou entrar no avião. Até depois...

a tua angústia

Morro de saudades de te sentir viva, em carne e osso, que vive e respira numa casa algures numa aldeia, que tem um pequeno quintal e vive o mais que pode da terra, como quem respira instintivamente, que também o ar vem da terra. E tu, como sempre disseste, dela vieste e a ela voltaste.

photo by Miyu Decay
E, ainda assim, depois de ver o teu corpo na terra, sinto-te no ar. Não sei se estás no ar do passado ou do presente, mas estás, com toda a certeza, no ar e o ar é atemporal. Pouco importa o resto.

Há sempre algo que me faz voltar a ti. Há sempre algo de muito vago e longínquo em reflexões duras de sentir. Sou céptica até em relação ao cepticismo. Sou céptica como tu, que sentias mais do que o que sabias.

Preciso de te sentir, preciso de te sentir. Estarei eu a consumir a tua angústia? Preciso de não me fixar.
---


O que se passa comigo, que não faço nada do tempo que passa?



24 de Março de 2014

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

o gostar da Alma

sabes bem que não é da tua personalidade, ainda estranha para mim, que gosto. tão pouco é a ideia de ti - confesso que também essa questão me levantou a sobrancelha. Mas vejo agora que o que gosto em ti é a única coisa que conheço verdadeiramente. 

concluí ainda que não sou eu que sinto esse gostar.

é a minha Alma. é a minha Alma a gostar da tua Alma. e sei que a tua, ainda que fugazmente, também gostou da minha.

não me digas que não o sentiste igual. não é no futuro que se avalia o que se sentiu no presente.
podes deixar de o sentir. podes já não querer senti-lo. mas não deixas de o ter sentido.



não me escrevas erro.

não te escrevas arrependimento.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

o instante anterior


O Agora é uma visão. Uma visão que se construiu entre o enlace de tantas outras ilusões com elas próprias. O Agora de cada instante foi originado pelo instante anterior... O Agora é então uma consequência! Uma consequência, no fundo, de algo que nunca poderíamos ter controlado.





2009

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

o Veado

as linhas irão eventualmente quebrar-se.
não, todas não.
ficará uma apenas. a mais forte.
há uma linha que supera qualquer comparação material.
essa permanecerá.

as outras vão-se esticando e rompendo.
é natural.
algumas vais rasga-las tu.
outras vou ser eu a larga-las.
solto-as para ti, por mim.


é tempo de seguir o Certo.
é tempo de deixar o Universo agir sem intervenções terrenas.
é tempo de libertar o Tempo.

Fomos e seremos, mas,
agora, não.
Depois.
Agora não.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

como tu em oposto

Meu querido, não me leves a mal - tu és tão querido e tão tontinho...

Se pelo menos o teu corpo fosse diferente... Tão oposto precisaria ser o teu corpo para assim eu me perder na doçura do teu espírito bom e da tua alma bela...

Não me leves a mal, meu querido. Eu também não levo a mal a tua teimosia. Mas devo ser insistente, como tu em oposto, na afirmação da resposta negativa.

Meu querido, não tens culpa, mas eu também não...

Sei que te vai passar com facilidade o sentimento que me tens, que não o sinto por ti, meu querido, desculpa. Rápido nem vais notar que ele te habitou. Por isso, meu querido, não te habitues a senti-lo, nem o sintas demasiado.

É só o que é. E tudo deixa de ser. Tudo passa.

Sabes bem que, mesmo que venhas a consumir o meu corpo, não me vais consumir a alma, pois não o sinto da mesma forma. Desculpa, meu querido, desculpa.

Sentimos coisas diferentes e isso vai fazer-me impedir que te me entregues.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

perfeitamente sozinha

Estou enjoada de consumir oxigénio, o mesmo oxigénio que me permite viver em sufoco de tão insuportável a insistência quase mecânica, quase metafísica em respirar. Permito-me obedecer ao instinto do corpo e, se não for instinto, permito-me obedecer ao algo que me marioneta os órgãos. E se nada me marioneta os órgãos, estarei eu a viver em sufoco de vontades próprias ocultas ou sinto as essas mesmas vontades?

Continuo sem perceber o que faço aqui, o que vim a este corpo fazer e o que faço, que continuo a respirar. Se não existir, ou se não o encontrar, propósito de vida, o pouco que trouxe ao mundo é pouco mais do que vago...


Caminho pela vida terrena à boleia dos que sabem para onde vão ou por onde vão. Quase instintivamente sigo-os, como outros seguem as estrelas. Não sei o caminho, não sei o destino, mas sei, perfeitamente convicta, que devo segui-los. 

E o que recebo é tanto comparado com o que dou...

Nunca soube para onde vou, nunca soube o melhor caminho, nunca tive sequer um caminho certo (que a incerteza e o imprevisto me pertencem). E, se não sigo ninguém, quando sei por breves momentos o caminho, caminho perfeitamente sozinha, solitariamente acompanhada de mim mesma, invariavelmente fora de mim.

Nunca guiei ninguém, sigo, deixo-me levar, mas não acontece arrastar e deixar rasto faz parte. Está na hora!


Fevereiro de 2014