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entrega-me ao destino em branco

Espaços velhos, vazios, abandonados dentro de mim
de inúmeras cores, monocromáticas monotonias
luzes de fusco, mortas de calor assim
numa aragem de qualquer coisa sombria

sons curiosos, violentas harmonias da alma
desesperados sussurros do moderno, alterno
enchem as paredes, transbordam de calma
o que um dia soou de falso eterno

beija-me as chagas, afaga-me a dor
e abraça-me a cantar, aqui, assim,
no lugar da crueldade d'o amor
no calor d'algo novo, indifinido, apenas, agora

leva-me para longe de mim
pega-me, viaja-me, entrega-me
ao destino em branco, pedaços de fatalidades por escrever
numa barulheira infernal de um qualquer estado pacífico
de um qualquer lugar maravilhosamente perdido
nos achados encontrados algures na linha que corri,
que suei e morri, beijei nunca o correcto,
sensação marginal sem espaço nem fundo
que assim sendo suga a certeza de viver.

Explora-me, guia-me e traz-me de volta ao mundo negro,
por fora cheio de d'algo místico, d'algo estúpido,
que faça sofrer e chorar o que de mais claro
se esconde na escuridão da alma.
Suga-me a vida, o olhar embriagado de noites solitárias
em companhias despistadas, encantadas de cegueira, vazia alegria social.

lava-me a magia do amor, lava tudo. leva tudo!
deixa-me apenas, deixa-me apenas ser e não ser.
Deixa-me, não me assombres, deixa-me!

Viajo sempre e sempre volto.
Volto, mas nunca volto inteira.
Cheia de pedaços partidos, solto
de uma maneira quase ligeira
toda a essência de ser quem sou.

2014

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