segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Não se corre de olhos fechados

Sonho ainda com o que poderíamos vir a ser
como se não sentisse a realidade a tocar-me os pés.
Alcanço, com as mãos, a nuvem de maior altitude,
onde repousas, íntegra, a mirar em redor.

Era capaz de fantasiar que também me vês,
que me olhas munida de imaginação e saber.
Abala-me, porém, a âncora que acorrentei aos calcanhares.
Não me deixa voar mais, não me libera da Terra.

E sorrio, pois, quando chove, de olhos lamacentos.
Nesse estado meio líquido, meio sólido - metade quente -
sinto-me inteira com a possibilidade de te beijar.
Cresci a correr à chuva e, por isso, a ser castigada.

Pudesse eu despir-me de todo o romantismo e dedicar-me a correr. Invejo vê-los possessos de determinação, conhecendo já o caminho, de respiração controlada, a beijar o vento e a suar a dor. Invejo-lhes a disciplinada manutenção dos corpos. Desejo-o para mim, mas eu sou mais cabeça, coração na boca e amor nas mãos que oferecem de olhos fechados. Não se corre de olhos fechados.

terça-feira, 5 de março de 2019

Será que precisamos disto?

Foi de mim que levaste essa aura bonita de flora e fauna, da mais interior palermice da alma assim florida de te ver passar e logo viajar no tremor. Querer sentir tudo quanto é doce, repetir a poesia da filosofia d'amor, sem ter certeza se sou já um pouco mais do que um moço. Adormeci sem nunca encontrar resposta.

Apostaram ontem e amanhã de manhã; mas hoje ficámos como que estáticas. Se isto que faz suar é um inocente ardor, ficámos pois de pergunta posta. Procurando o primeiro nó da maranha, de café na mão e mentes elásticas: será que precisamos disto? Será mais forte a vontade ou a necessidade?

Suspende-me o tempo e surpreende-me!
Foi de tanto te adorar.

Corpo controlado, mente descontrolada.

Olhei para ti ao longe, naquele entardecer outonal. Quis beijar-te quando me sorriste de alegria. Engordas-me as pupilas. Enterneces-me, digo. Procuro em mim a resolução para esta dificuldade de expressão como se aquela música portuguesa falasse finalmente para mim. Queria fazer-te ouvi-la. Queria que a conhecesses, que a pudesses entender sem que eu a traduzisse.

Queria abraçar-te docemente na embriaguez da atracção, na profundidade dos nossos desejos. E ainda uma incerteza de completude a excitar-nos a paixão. Olhar-te pela manhã leva-me a soltar a imaginação. Consegues ver-me na tua? Mas o teu pescoço... Esse íman que magnetiza a minha mente.

Já nem sei acalmar o fluxo dos meus nervos. O sangue circula freneticamente. E mais do que fluído, meu amor, é mesmo sem controlo. Como permaneço eu sob controlo, então? Respeito-te. O respeito e a admiração que te tenho controla-me o descontrolo. Corpo controlado, mente descontrolada. Quem me dera a mim saber-te mais. Resta-me aguardar pelos meus sonhos.

sábado, 14 de julho de 2018

cigarettes after sex

já não há mais cigarros depois do sexo. Deixei-me do prazer intoxicante de sugar esse veneno adictivo.

E ainda assim, ainda não encontrei a vontade maior de me amar a mim mesma.

A vida mudou-me. A inocência de querer dar sem nunca receber está em vias de extinção.

A mania de pegar nas palavras e armar-me em Cupido foi-se.

Acabou-me a bateria do velho teclado sem fios.

escrever fica agora para mais tarde.

domingo, 6 de maio de 2018

escrever

lembro-me, com saudade, de quando escrevia a pensar. não sei porque mil caminhos me levei, que me levaram a suspender o amar filosofar ou o tão somente palavrear. manipular as palavras da mesma forma que uma criança se envolve na construção de um castelo de areia.

faltaram-me muitos momentos de lucidez, para guardar a inteligência infantil, que é, muitas vezes, simplesmente divertir-se com os elementos.

faltaram-me mil corações meus a amarem-me a mim mesma, e a dedicarem-me orgulhos de integridade. Troquei-me nas prioridades. Antes de tudo o resto, desfoquei-me no altruísmo ardente de uma paixão condenada.

e depois das chamas, um piano de cordas rebentadas...

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Fui Contaminada

esta negritude que me aureia já me cansa,
já me oura.

como é que vim de tão longe para chegar aqui?

que plano misterioso vem de não saber quem,
nem quando?

queria dar-te uma pista de que ainda senti algo.
mas e que fazes tu com isso?
mas e que faço eu com isso?

tenho vontade de brincar de avestruz.
quero talvez até olhar nos olhos da Medusa.
e que faz Ela com os meus olhos?

o que faço eu com os meus olhos?

malditos pontos de interrogação
maldita maldade humana.

antes fosse o Amor um atributo exclusivamente divino,
mas, assim que toca a terra, já está contaminado.

quero tanto tudo mais simples, tudo mais puro.