quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Não era grave. Ela estaria viva no dia seguinte.

Há uns dias fez 4 anos que umas das minhas amigas morreu. Escrevo esta palavra, mas ela ainda me custa escrever, ainda me custa dizer como se toda aquela situação voltasse de repente a arrancar a pele da mesma forma que então.

conhecia-a já há muitos anos. Nós dávamo-nos bem. Não éramos melhores amigas, nem éramos inseparáveis. Mas apreciávamos verdadeiramente a companhia uma da outra. Andámos no mesmo colégio e, embora só nos encontrássemos no final das aulas, o percurso do colégio a casa era entre nós as 3: eu, a X e a L. A maioria das vezes saíamos do autocarro umas paragens antes e fazíamos o resto do percurso a pé e a falar. Não me perguntem sobre que falávamos mas gostávamos de o fazer. O primeiro destino era o da L e pouco depois o meu. Muitas vezes, a X ficava comigo, na minha paragem, a falar mais. Outras vezes ia namorar às escondidas dos pais e eu encobria-a se a mãe me ligasse preocupada por ela estar atrasada. Não era grave. Ela estaria viva no dia seguinte.

Quando ela ficou doente, eu já não a via há um tempo. Ela ainda andava no colégio, mas eu já estava a estagiar. E foi de um momento para o outro. Desmaiava muitas vezes sem que ninguém percebesse porquê. Ia para o hospital. Fizeram-lhe diversos testes e não conseguiam descobrir que doença ela tinha. Ficou hospitalizada. Poucos dias passaram e as notícias que recebíamos eram cada vez piores. Só não tínhamos noção que eram TÃO más - ou não queríamos acreditar. 

Enviámos uma mensagem com a letra "Um pouco de céu" da Mafalda Veiga - a preferida dela. E ela respondeu com muita alegria. Um dia depois fomos, em grupo, ao hospital visitá-la. Tínhamos comprado chocolates dos bons para lhe adoçar o apetite... Não chegámos a vê-la. 

Ela tinha um tumor no cérebro e tinha-se alastrado a todo o corpo. Nesse mesmo dia tinham-lhe induzido o coma. Os pais, coitados dos pais, ... parte-me o coração só de me voltar a lembrar de como eles estavam nesse dia. E o irmão parecia uma barata tonta. Legalmente podíamos ter ido vê-la, mas a mãe fez questão que não fossemos. «Ela está muito desfigurada, eu quero que vocês se lembrem dela como ela era». Claro que respeitámos, ainda meio parvas, com a porra dos chocolates numa mão e a porra da resposta dela à mensagem na outra. Olhávamos para ambas as coisas e pensávamos «mas.... » «mas... » «mas.... ». A única pessoa que os pais deixaram que a visse  naquele estado foi a mãe de uma de nós, por ser enfermeira. O relato foi... assustador. 

Ficámos naquele hospital ainda algum tempo à espera de notícias por parte dos médicos que a estavam a examinar. Saímos de lá com a pior das notícias «não está a responder a estímulos». Voltámos para casa na viagem de metro e autocarro mais silenciosas que, juntas, alguma vez fizemos  Do nada, uma pergunta «e os chocolates?!» e foi ver-nos a rir à gargalhada feitas idiotas (totalmente a lembrar a cena do funeral do George de Anatomia de Grey - talvez por isso compreenda tão bem essa cena anyway).  Depois parámos e o resto da viagem continuámos caladas. e o resto do dia. e o resto da noite...

Não éramos burras, mas todas nós queríamos tanto acreditar.... merda, queríamos acreditar que ela não ia morrer. afinal ela ainda estava viva. podia muito bem assim de repente mexer um dedo... Na minha cabeça imaginava aquelas cenas de filmes em que já não há esperança e derrama-se uma lágrima de tristeza no peito da pessoa e ela, do nada, acorda. Lembrava-me disso e queria acreditar e isso fazia-me sentir calor.

Não é, por isso, de admirar que o dia seguinte tenha sido um banho de água fria. A minha melhor amiga de então ligou-me:

«Desligaram as máquinas...»

...

(to be continued...)

LOV ' YOU

sábado, 1 de outubro de 2011

carta à melhor amiga

[...] Eu acho que passei a minha vida a ser amiga e nunca me preocupei muito em ter amigos... e sempre me contentei com os "amigos" que tinha. Por isso, sempre guardei tudo para mim, no meu próprio mundo, e só eu sabia o que se passava comigo. Acho que aprendi mesmo a viver assim: a ouvir sem falar; a observar sem ser observada. No fundo, sempre passei despercebida e é provável que seja por isso que nunca senti tanta necessidade [como tu] de vestir preto.

Digamos que não foi preciso ter alguém sempre a dizer que eu era ninguém para me convencer disso. Porque, de facto, eu era mesmo ninguém. Eu era invisível para eles e, provavelmente, nem para gozar servia. Eu era um nada para todos. Nunca me ria, não falava, andava muitas vezes sozinha e só se aproximavam de mim quando estava acompanhada de supostas amigas. Aliás, aproximavam-se era delas! Eu chegava ao fim do ano lectivo sem saber o nome das pessoas da minha turma.

No grupo de amigas eu sentia-me sempre a mais. Havia segredos que só eu é que não sabia. Mas eu não tinha mais ninguém e, como tu disseste, "era suposto ter amigos"! =) Aprendi a fechar-me ainda mais. Aprendi a não confiar em ninguém, ou, pelo menos, a saber perfeitamente o que esperar das pessoas em quem confiava.


[...] Ninguém sabia lidar com isso e eu não conseguia lidar com nada. E fui-me fechando cada vez mais e mais e mais. Sim, acho que era anti-social.

Bem, isto são 2 - 3 anos da minha fantástica existência (5º - 6º ano). Acho que para já não consigo escrever mais. [...]

hum... se estás neste momento a ler isto, significa que nunca confiei tanto em ninguém na minha vida inteira como estou a confiar em ti [...] Obrigada por me deixares confiar em ti!


2008



LOV ' YOU